Viajar sempre foi e é um dos meus maiores prazeres, ou melhor, felicidade!
Pois prazer é algo material, corporal, e felicidade é algo que fica, permanece e nos traz vitalidade.
Para mim, viajar é isso.
É uma escola do olhar...do sentir...do cheirar...
Saber que há diferentes pontos de vista sobre uma mesma realidade.
E que precisamos de todos eles, para ver melhor.
Acredito que viajando, mesmo pertinho, buscamos despertar em nós o chamado olho do Querubim.
O Querubim, na tradição antiga, é um estado de visão, representado como asas repletas de olhos.
Essa imagem é encontrada em diversas culturas, particularmente na tradição da Etiópia, onde há Querubins nos tetos das igrejas: olhos que nos olham.
Num tempo de extrema dificuldade, fiquei surpresa ao ver um médico me dar um pequeno rolinho e dizer:
Eis seu remédio.
Ao desenrolar, vi que havia nele asas com olhos.
Tocou-me profundamente, porque compreendi que se tratava de colocar um outro olhar sobre a vida.
Viajar percebendo os aromas é isso, é enxergar com outros olhos...
Pois na vida há a visão do médico, do psicólogo, dos amigos, mas há também o olhar do Anjo.
Esse olhar que vê o que acontece segundo um outro ponto de vista, de outra profundidade e que contempla as nossas dificuldades ou percepções não somente como os olhos humanos são capazes.
Então pode se abrir, talvez, uma outra interpretação sobre aquilo que nos ocorre.
Os aromas nos chamam para aquilo que não vemos...
Assim, vamos imaginar um olho, com facetas, como o de uma abelha.
A maneira de ver alguém ou algo pode mudar, segundo a qualidade de nosso olhar.
"Sofremos demasiado pelo pouco que nos falta e
alegramo-nos pouco pelo muito que temos",
escreveu William Shakespeare.
Os aromas nos ajudam a mudar o olhar, nos despertam...
Vou propor o olhar dos Antigos Terapeutas que possui sete olhos; nós, geralmente, paramos no terceiro.
* O primeiro olhar é o ver - eu vejo.
* O segundo é o olhar da ciência - eu observo, eu analiso. É um olhar apoiado, aprofundado.
* O terceiro olhar é o que pergunta - eu interrogo. O que é este sintoma? O que ele manifesta? O quê? O que é?
* O quarto olhar é o que se pergunta - eu me interrogo. Como é que eu vejo? É o olho da filosofia metafísica. O que é o Ser? O que é o ser humano? Trata-se do como eu conheço.
* O quinto olhar se abre para o sentido - eu acolho o sentido. Por intermédio dos sintomas, dos sonhos, da fala, simplesmente acolho o sentido, antes de interpretá-lo.
* O sexto olhar é o da interpretação - eu interpreto. Esta interpretação pode ser criadora. Após o exercício de todos esses olhos da observação, da análise, da interrogação, da escuta acolhedora, me torno capaz de interpretar e dar um sentido ao que a pessoa está vivendo.
* O sétimo olhar é que direciona e liberta - vá com sentido! Da mesma maneira que dizemos: Vá com Deus, vá com sentido! Vá com a interpretação da sua dificuldade, não apenas na sua dimensão mental; também há meios de cuidar de você.
Vá em direção a você mesmo, eu estou com você!
Esta foi a Palavra dirigida por Deus a Abraão.
(Texto: Uma escola do olhar - Jean-Yves Leloup)